sexta-feira, 22 de agosto de 2014

GOLDENBERG DEFENDE UM NOVO PACTO SÓCIO-POLÍTICO

JORNAL DO COMERCIO 06/08/2014

Rubens Goldenberg defende um novo pacto sócio-político


Eduardo Amaral


JONATHAN HECKLER/JC
Rubens Goldenberg defende um novo pacto sócio-político
Rubens Goldenberg defende um novo pacto sócio-político
Aos 58 anos, o empresário Rubens Goldenberg (PRP) entra na disputa ao Senado sabendo das dificuldades que terá para colocar-se como uma alternativa viável para os eleitores. O grande desafio de Goldenberg será apresentar suas propostas e angariar votos para uma legenda ainda pequena no Estado. “Posso fazer muito mais que muita gente imagina”, projeta.

Nesta entrevista ao Jornal do Comércio, o candidato defende uma Constituinte exclusiva e mudanças profundas na legislação brasileira. Para Goldenberg, o País só conseguirá avançar com “um novo pacto sócio-político”. O candidato do PRP prega a independência e critica a atuação dos parlamentares da base aliada. Goldenberg entende que fazer parte do governo não implica “ser lacaio do governo”, atitude adotada, segundo ele, por deputados e senadores da base da presidente Dilma Rousseff (PT).

Jornal do Comércio - O que o senhor pode acrescentar como senador da República pelo Rio Grande do Sul?

Rubens Goldenberg –
 Posso fazer muito mais que muita gente imagina, porque eu não tenho vinculação nenhuma ao governo estadual nem federal, eu não devo favor, eu não tenho cargo indicado, meu partido não tem cargo. Nós vamos livres para poder defender o ser humano, o povo. Os outros têm cargo, têm ministério, ocupam espaço e, quando se ocupa espaço, você tem obrigações, e o senador tem que ter liberdade de ação.

JC - Mas essa liberdade partidária não pode ser uma faca de dois gumes em um cenário político que cada vez mais se precisa de parceria e união em blocos para as votações?

Goldenberg – 
É um pouquinho diferente, tu colocas que vivemos em um presidencialismo participativo, não é participativo. Vivemos em um presidencialismo não de participação, mas de coabitação. A conversa deve existir em qualquer instância, fazendo parte do governo ou não. O que tem que ser discutido é o pacto social político e federativo. Não existe uma federação aqui, existe um império. A União arrecada, fica com 64%, o resto divide entre estados e municípios. Fazer parte do governo é muito fácil, pois estás no bolo, quando o bolo é um só, aqueles que fazem parte dividem o bolo, mas não têm o direito e a liberdade de tentar fazer com que o bolo seja mais justo. Mas fazer parte do governo é não ser lacaio do governo.

JC - Qual a sua proposta para a dívida do Estado?

Goldenberg –
 Passa por uma auditoria e, acima de tudo, vontade política para resolver. A Lei Kandir, que beneficiaria o Rio Grande do Sul em milhões, nunca foi regulamentada, desde o governo FHC (Fernando Henrique Cardoso, PSDB) até agora, nunca regulamentou, os outros vão dizer agora que vão regulamentar. Agora vão dizer que baixar os juros da dívida vai resolver o problema do Estado. O Estado passa por uma questão de reestruturação de dívida, por uma questão de gestão, passa por questão política. As pessoas precisam diferenciar o que é Estado do que é governo. Governo é uma coisa transitória, o Estado permanece. As coisas têm que ser projetadas para 10, 20 anos. Enquanto não houver o pacto sócio-político, não há mudança em nada.

JC - O pacto social é a sua principal bandeira?

Goldenberg –
 Um pacto social e político, porque sem mudança política, da forma como está, no voto proporcional, vence quem tem a capacidade econômica maior. Você é candidato lá de Soledade, faz 50 mil votos em Soledade, vai ao Interior e pega mais 40 municípios e faz mil votos, qual o compromisso que você tem com esses votos, nenhum. Já no voto distrital, você é eleito pelo seu distrito.

JC - O senhor defende uma nova Constituinte. Para que matérias?

Goldenberg –
 Defendo uma Constituinte exclusiva para reformarmos tudo o que estamos discutindo: dívida, saúde, educação. Reforma constitucional seria para reformular o Estado, não os entes federados. Essa Constituinte vai delinear as necessidades reais do povo, as necessidades reais dos municípios. Não adianta delegar para o município se ele não tem recurso.

JC - A eleição para o Senado tem se mostrado polarizada entre dois candidatos, Lasier Martins (PDT) e Olívio Dutra (PT). Como pretende entrar nessa disputa?

Goldenberg –
 Não vamos quebrar a polarização atacando quem quer que seja. Nós vamos mostrar e terminar com a polarização mostrando a verdade. Quando você vai para a função pública, você representa o povo, não é você, então, você tem que dizer a verdade. Saúde, por exemplo. Mais Médicos, eu sou a favor do Mais Médicos, mas sou a favor do Mais Médicos brasileiro, criando a carreira federal de médico, com concurso e com regramento. Na saúde, o primeiro projeto de lei seria determinar que todos os cargos eletivos, presidente da República, vice-presidente, senador, deputados estaduais, deputados federais, todos eletivos são obrigados a usar o SUS. Se você é o gestor público e não serve para você e o povo tem que passar a miséria na fila, sem remédio e sem equipamento, bota o gestor público a passar na própria pele o que está passando o povo. Ele tinha que por moral e por obrigação usar o serviço público e dar exemplo. As minhas principais bandeiras são saúde, educação e segurança e a renegociação da dívida pública.

JC - E quais as propostas para a segurança?

Goldenberg -
 Proposta um: readequar os contingentes das polícias militar e civil. Dois: prepará-los efetivamente com cursos, não de seis meses nem de um ano, mas de pelo menos dois anos. Três: salários dignos para que exerçam a função e não precisem de bicos. Quatro: o aparelhamento científico do Estado. Quinto: aparelhamento em diligência. Você não lida com o crime de tráfico da mesma forma que o praticado pelo cidadão que rouba biscoito.

JC - Entre suas propostas está o ensino religioso, a critério das escolas e dos alunos. Como seria?

Goldenberg –
 A cultura religiosa é uma cadeira em que você não discute uma religião, você ensina a cultura de todas as religiões. E se ele quiser amanhã optar por uma delas, ele vai optar. Isso é implementar algo no ser humano que ele vai aprender que existe Deus, que existe algo superior independentemente de religião.

Perfil

O candidato ao Senado pelo PRP, Rubens Goldenberg, nasceu em Santo André, São Paulo, durante uma viagem de negócios da família. Dias depois, já estava em Rio Grande, onde passou boa parte de sua vida. Em 2008, foi candidato a prefeito de Rio Grande pelo DEM. Segundo o candidato, o objetivo, na época, era apresentar-se aos eleitores locais, depois de muitos anos fora da cidade. Com isso, visava às eleições municipais de 2012, porém, em razão da descoberta de um linfoma, adiou os planos para realizar o tratamento. Casado e pai de três filhos, Goldenberg vive atualmente em Porto Alegre, cidade onde presta consultoria para empresas privadas. No Senado, se propõe a defender reformas tributárias e constitucionais.

CIRO QUER REFORMAS ELEITORAIS E ADMINISTRATIVA

JORNAL DO COMERCIO 13/08/2014

Reformas eleitoral e administrativa são inadiáveis, afirma Ciro Machado


Marcus Meneghetti

ANTONIO PAZ/JC
Candidato do PMN acredita que o País precisa das reformas eleitoral, política e administrativa
Candidato do PMN acredita que o País precisa das reformas eleitoral, política e administrativa
O candidato a senador pelo PMN, Ciro Machado, acredita que o País precisa urgentemente das reformas eleitoral, política e administrativa. Suas principais propostas sugerem alterações no processo das eleições, nas práticas políticas e nos gastos com a administração pública – o que requer mudanças na Constituição, que, como o próprio candidato reconhece, são difíceis de serem realizadas. Ao avaliar a reforma política e eleitoral formulada pelo governo federal, classifica-as como “superficiais, apenas perfumaria, que não vão gerar mudanças profundas”. Além disso, julga que nenhuma das outras candidaturas ao Senado apresenta possibilidades de mudanças significativas nessas matérias.

Como suas propostas têm caráter nacional, o candidato do PMN pensa que o espaço adequado para divulgação das suas ideias é o Senado. Ele sustenta que sua candidatura é federal, não regional, embora acredite que as reformas que defende teriam efeitos nos estados e municípios.

Machado avalia ainda que nenhum dos dois candidatos que lideram as pesquisas de intenção de voto – o comunicador Lasier Martins (PDT) e o ex-governador Olívio Dutra (PT) – têm propostas concretas, além de os partidos de ambos defenderem a reeleição da presidente Dilma Rousseff (PT), a quem ele faz oposição, seguindo a orientação do seu partido, que declarou que fará campanha para o presidenciável Aécio Neves (PSDB). 

Jornal do Comércio – O senhor é a favor de uma reforma política?

Ciro Machado – 
Sem as reformas política, eleitoral e administrativa, o Brasil não tem futuro. Na reforma eleitoral, prego um limite legal para a criação de novos partidos. O PSD, criado pelo (ex-prefeito de São Paulo Gilberto) Kassab, é um exemplo clássico: de repente, não estavam sendo atendidos nos seus cargos e resolveram criar um partido a partir dos deputados eleitos por outra legenda. Ou seja, a Lei Eleitoral é omissa à infidelidade partidária. Então, se isso não tiver um limite na Lei Eleitoral, em breve, ao invés de 32 partidos, vamos ter 64. Portanto, defendo limites legais para a criação de novos partidos. Além disso, sou a favor da verticalização das coligações: tem que terminar com essas coligações espúrias, esdrúxulas, interesseiras que são realizadas nos estados, em contradição às nacionais. Aqui, no Rio Grande do Sul, muitos candidatos ao Senado estão coligados na chapa da presidente Dilma em nível nacional e descoligados em nível estadual. Isso aí confunde a cabeça dos eleitores, não é uma boa prática política, enfraquece os partidos. Aí, aparece o candidato Lasier dizendo que o PDT do Rio Grande do Sul é diferente do PDT Nacional. Eles se justificam dizendo que são diferentes, mas não existe diferença, porque não existe o partido regional, ele é nacional.

JC – Falta coerência?

Machado –
 Coerência partidária. Existe uma assembleia nacional do partido, com todas as instâncias e, se decidem apoiar determinado candidato, ele tem que seguir aquela orientação. Sem espaço para dissidência. Também é necessário a unificação das eleições em todos os níveis, já a partir de 2018, desde o prefeito ao presidente da República. Essa medida evitaria, por exemplo, que metade dos vereadores de Porto Alegre em pleno exercício do mandato sejam candidatos a deputado, sem se licenciarem da Câmara Municipal. Se analisarmos o caso da senadora Ana Amélia Lemos (PP), ela não tem nada a perder, pois, seu mandado no Senado está garantido. Se ela estivesse no final do mandato de senadora, tenho quase certeza que pensaria duas vezes antes de se candidatar a governadora. Além disso, proponho a perda do mandato para o parlamentar que assumir cargo no Executivo e a ampliação do prazo para desincompatibilização para vice-governadores e vice-prefeitos de seis meses para um ano. Por último, defendo a inelegibilidade dos candidatos condenados já na primeira instância.

JC – E quanto ao financiamento das campanhas?

Machado –
 Minha proposta é que financiamento seja feito apenas pela iniciativa privada, através somente de pessoas físicas, na razão de 10% dos seus rendimentos anuais declarados à Receita Federal. Esse limite significa que a pessoa está interessada em ajudar o candidato, não em financiar o candidato para obter retorno depois.

JC – As propostas que o senhor mencionou até agora entrariam em uma reforma eleitoral, mas o senhor também mencionou uma reforma política. Que tipo de mudanças o senhor propõe?

Machado -
 O meu principal item é reduzir pela metade o número de deputados federais e em um terço o de senadores. Como não se pode reduzir salário, tem que reduzir o número de cadeiras. Isso é possível através de uma proposta de emenda constitucional para alterar o artigo 45, parágrafo primeiro da Constituição. Hoje, os 513 deputados mais os 81 senadores custam, segundo o portal Transparência Brasil, R$ 8,5 bilhões por ano. Se reduzir o quadro pela metade, vai haver uma economia de R$ 4,2 bilhões anuais. Além da economia bastante significativa, teremos um Congresso mais qualificado e de fácil controle por parte do eleitor. Também prego o fim das emendas parlamentares, porque, o parlamento tem que legislar, fiscalizar o Executivo e analisar o orçamento. Além disso, as emendas deixam o parlamentar dependente do Executivo, corrompem o parlamento, não lhe dão liberdade. Cada parlamentar tem direito a R$ 500 milhões por ano em emendas, o que representa o total de R$ 7 bilhões por ano, ou seja, 1% do orçamento da União.

JC – E a reforma administrativa?

Machado –
 Precisamos reduzir o número de CCs (cargos em comissão) e de ministérios. Creio que teríamos que reduzir os ministérios pela metade, pois, 39 ministérios é demais. Também teríamos que reduzir o número de CCs, em nível federal. O Executivo abriga 22.600 CCs, o que representam um gasto de R$ 4 bilhões por ano. E o Congresso gasta muito mais: são 4.050 CCs no Senado e 12.825 na Câmara dos deputados, somando um total de 16.875 CCs, que custam R$ 6 bilhões anuais. Então, reduzindo deputados e senadores, teríamos uma economia de R$ 4,2 bilhões por ano, acabando com as emendas parlamentares, economizaríamos R$ 7 bilhões anuais e reduzindo pela metade os CCs, deixaríamos de gastar mais R$ 5 bilhões. Ou seja, com minhas as propostas, o País teria uma economia de R$ 16 bilhões por ano. Esse valor equivale ao orçamento de vários ministérios e de alguns estados.  Além disso, proponho concurso público para conselheiros e ministros dos tribunais de Contas. Acho que tem que ser abolida a interferência do Executivo na nomeação.

Perfil

Jornalista e advogado, Ciro Machado começou a trajetória política no Sindicato dos Radialistas, onde foi presidente duas vezes e militou durante as décadas de 1980 e 1990. Em 2004, quando era filiado ao PSC, foi candidato a vice-prefeito de Porto Alegre, na chapa encabeçada pelo deputado federal Beto Albuquerque (PSB) – que hoje é um dos adversários na disputa por uma cadeira no Senado. No mesmo ano do pleito, filiou-se ao PSB, onde tentou uma candidatura ao Senado. Mas, nas suas palavras, “não conseguiu espaço para divulgar as suas ideias dentro da legenda”. Por isso, no final de 2012, aceitou o convite para reorganizar o PMN.  

LASIER É A FAVOR DA UNIFICAÇÃO DO ICMS

JORNAL DO COMERCIO 18/08/2014

Lasier é a favor da unificação da alíquota do ICMS


Lívia Araújo

ANTONIO PAZ/JC
Lasier comenta ao JC sobre a candidatura ao Senado
Lasier comenta ao JC sobre a candidatura ao Senado
Profissional de mídia há cinco décadas, o pedetista Lasier Martins entrou para a política partidária no ano passado, quando deixou o grupo RBS para se filiar ao PDT, pelo qual se lançou, em sua primeira disputa eleitoral, candidato ao Senado. A forte presença midiática, a seu ver, representa mais um desafio do que uma vantagem na campanha. “Eu tenho andado muito pelo Estado, e o que mais tenho ouvido é ‘vamos ver se você vai lá para cima para ser igual aos outros’. Mas a exposição pode me dar uma pequena vantagem, se as pessoas que concordam com o que eu pregava no rádio e na televisão votarem em mim”, acredita.

Lasier conta que aceitou concorrer com a condição de que o PDT fosse à disputa com candidato próprio. “O PDT não pode servir de coadjuvante de outros partidos, ele tem que ser protagonista”, acredita. Sua principal plataforma de campanha é relativa às finanças do Estado. Lasier defende que a escassez de recursos poderá ser sanada com um novo pacto federativo que reveja a centralização de tributos estaduais na União. “Temos de reivindicar um melhor atendimento tributário, mas também fazer uma unificação da alíquota do ICMS”, avalia. 

Integrando a chapa majoritária encabeçada por Vieira da Cunha (PDT) e Flávio Gomes (PSC), em coligação com DEM, PV e PEN, o candidato, nesta entrevista ao Jornal do Comércio, também comenta sobre os desdobramentos das jornadas de junho e critica as políticas de Estado de um de seus principais adversários ao Senado, o petista Olívio Dutra.

Jornal do Comércio – Como se deu sua aproximação com a política e o que o motivou a concorrer ao Senado?

Lasier Martins –
 Há 30 anos eu tenho sido convidado a entrar na política. O PP, o PSDB e o PMDB também me chamaram para concorrer ao Senado. Sempre protelei, mas, com o crescimento da degradação da política, aquilo começou a me soar como um desafio e eu achei que realmente estava na hora de fazer o que tanto me inquietava. Aceitei com a condição de que o PDT tivesse candidatura própria e, daqui por diante, tenha candidato em todas as eleições, empenhando-se para não mais viver a reboque de outros partidos. É um partido com a cara do gaúcho, e meu pai sempre foi um fervoroso trabalhista. Por esses fatores todos eu decidi colocar meu nome à disposição.

JC – Quais são os temas centrais da sua candidatura e prioridades para o Senado?

Lasier – 
Eu entendo que nada se fará pelo Rio Grande do Sul sem uma mudança orçamentária. O ponto de partida é mexer no pacto federativo. A Constituição diz que estados e municípios têm autonomia, mas não é possível isso acontecer sem recursos. Existe uma grande concentração de tributos na União e, cada vez mais, os estados perdem poder, têm mais compromissos, mas menos recursos. O Rio Grande do Sul é o 6º estado em arrecadação, mas é o 11º em retorno. São R$ 35 bilhões que mandamos para Brasília e em troca recebemos R$ 12 bilhões. A Bahia arrecada só R$ 15 bilhões e recebe de volta R$ 25 bilhões, quase o dobro. Há uma falta de equanimidade no tratamento. Temos de reivindicar um melhor atendimento tributário, mas também fazer uma unificação da alíquota do ICMS. A pedra de toque para o desenvolvimento é a questão financeira. Todo mundo fala que precisamos melhorar a educação, a segurança, a agricultura, a saúde, mas isso tudo é muito vazio se não tivermos mudanças com relação à distribuição dos tributos, entre eles, o Fundo de Participação dos Municípios. O governo central distribui conforme suas conveniências ou simpatias partidárias, e nossos municípios gaúchos têm recebido muito pouco. Então, é preciso mexer na questão tributária através do reestabelecimento do pacto federativo.

JC – O senhor critica fortemente a saída da Ford do Estado, no governo de Olívio Dutra. Mas a empresa acabou sendo condenada pela Justiça a indenizar o Estado...

Lasier 
 Esse caso não terminou ainda. Quando o governo (Antonio) Britto (PMDB) trouxe a Ford para o Rio Grande do Sul, a empresa adquiriu, através do governo e com grande participação financeira deste, os terrenos de Guaíba. E antecipou, na época, R$ 300 milhões, que hoje vão a muito mais de R$ 1 bilhão, que seriam usados na construção da infraestrutura. É desse dinheiro que o governo do PT foi atrás e ganhou, mas esta ação não terminou. Esse processo ainda pende de julgamento pelo pleno do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul. A Ford, por uma questão de marketing, não quis entrar contra o governo do Rio Grande do Sul por quebra de contrato. A empresa gastou muito para fazer o projeto de instalação no Rio Grande do Sul, contratou consultorias, fez projeto de quais automóveis seriam montados aqui, e isso demandou gastos e contrato. Mas, quando o Olívio assumiu, declarou que não daria dinheiro para multinacional rica. Ele quebrou o contrato a tal ponto que, quando o presidente da Ford, Ivan Pereira, veio ao Rio Grande do Sul, o Olívio não o recebeu, deu-lhe um chá de banco e o mandou ser recebido pelo Zeca Moraes (então secretário estadual de Desenvolvimento e Assuntos Internacionais, PT). Sei disso porque, na época, eu estava na reportagem e acompanhei tudo, além de ter ido a Detroit (EUA), quando uma comitiva de empresários e deputados do governo Britto foi lá agradecer ao presidente mundial da Ford por ter escolhido o Rio Grande do Sul. Jack Nasser disse: “Vamos fazer em Guaíba a fábrica de automóveis mais moderna do mundo, porque o automóvel sempre existirá, a diferença é que serão mais sofisticados”. E confirmou, diante de nós, que viria à inauguração e transformaria Guaíba na cidade mais ajardinada do Rio Grande do Sul. Na semana seguinte, se soube que a Ford não vinha mais por quebra de contrato. Isso foi uma decisão altamente prejudicial à economia do Estado, porque ao não vir a Ford, também não vieram a Goodyear e outras empresas. Na Bahia, houve a criação de milhares de empregos, renda, tributos. Alguém poderá dizer que “o Lasier está aferrado a uma questão do passado”. Sim, a questão é do passado, mas as consequências estamos vivendo hoje.

JC – O público vê uma polarização entre o senhor e Olívio Dutra, muito por conta de sua postura em relação à Ford.

Lasier –
 Temos divergências muito profundas em questão de desenvolvimento econômico. O Olívio recebeu um governo e o entregou pior ao seu sucessor. Reconheço que ele é uma pessoa honesta, um homem íntegro, mas tem decisões muito desastradas. Ele está muito aferrado a uma política estatizante, à agricultura familiar, que é importante, principalmente, para nós gaúchos, mas só isso não resolve. Temos que avançar e dar alguns passos adiante, em sintonia com o mundo moderno, e o Olívio não acompanha isso. Os grandes investimentos que perdemos são uma triste herança que temos: o Rio Grande do Sul está desprezado, porque criou-se um preconceito de que o Estado não cumpre contratos.

JC – O PSB, que está apoiando José Ivo Sartori (PMDB), e o PDT, há menos de um ano, apoiavam o governo Tarso Genro (PT). O que explica essa mudança?

Lasier  –
 O PDT entrou no governo Tarso contra a vontade do presidente estadual do partido, Romildo Bolzan, e do hoje candidato a governador Vieira da Cunha, além de vários candidatos a deputado federal, entre eles Pompeo de Mattos. Mas, como houve uma decisão de diretório estadual por pequena margem, os principais dirigentes perderam e aí alguns pedetistas entraram no governo. Mas quando obtivemos, junto ao presidente nacional do PDT (Carlos Lupi), a liberação para lançarmos candidatura própria, esses principais aderentes do governo Tarso se desligaram e aceitaram a posição de autonomia do PDT. Eu entendo o PDT como um partido muito grande. Não tem nada que servir de coadjuvante de outros partidos, tem que ser protagonista.

JC – O PDT apoia Dilma Rousseff (PT) em nível nacional. Qual a sua posição?

Lasier –
 Eu não apoio a Dilma, porque acho que ela não atendeu bem às carências do Rio Grande do Sul. Há quatro anos e meio eu a entrevistei, perguntando se faria a ponte do Guaíba e ela disse que sim, mas o governo dela está terminando e a ponte não tem licenciamento, nem projeto. Ela não cumpriu a promessa da ponte do Guaíba e agora promete o metrô, que é um sonho que temos, mas é irrealizável em curto e médio prazo. Ela também não cumpre o pacto federativo; pelo contrário, deixa os municípios gaúchos e estados como o Rio Grande do Sul à mingua.

JC – Como avalia a sequência dos protestos de 2013?

Lasier –
 Olha, foi uma das coisas mais emocionantes que vi. Aqueles acontecimentos também determinaram minha decisão de concorrer, pois percebi que a sociedade brasileira, as pessoas de bem estavam começando a reagir, saindo da letargia e protestando. É uma pena que, nos políticos brasileiros, aquilo entrou por um ouvido e saiu pelo outro. O povo brasileiro quer melhores serviços públicos, ética na política, o fim do esbanjamento do dinheiro público, do excesso de ministérios, dos 22 mil cargos de confiança (CCs), do aparelhamento do Estado por um partido único, nada disso a população quer.

JC – Há alguma maneira de a população participar das mudanças, além das eleições? O que acha dos conselhos propostos por Dilma?

Lasier –
 Esses conselhos populares do decreto da presidente são, antes de mais nada, inconstitucionais. Não resistem a uma avaliação do poder Judiciário. Mas acho que nós tivemos um início de reação. A população percebeu que somos um País rico, temos muitos recursos, solo fértil; temos biodiversidade para produtos farmacêuticos e médicos que nenhum outro país tem, recursos minerais, temos o pré-sal e, no entanto, apesar de sermos a sétima economia do mundo, estamos no 80º lugar no IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), um absurdo. A população se deu conta que é mal administrada, então, está na hora de reagir. Espero que essa reação se converta em votos, em gente nova na política.

JC – Acha que, de alguma forma, a população deve participar de políticas de governo?

Lasier –
 Acho que pode, por meio das leis populares, mas nós não podemos perder o sistema representativo. Ainda é o Congresso Nacional e os Parlamentos estaduais que devem responder, embora não estejam respondendo. Isso pode demorar um pouco, mas nós temos que começar a combater essas más políticas, através dessa representatividade parlamentar.

JC – Com relação à crise da política representativa, uma das questões discutidas é o fim do financiamento privado de campanhas. O que pensa?

Lasier –
 Nós precisamos de uma reforma política. A ideia de que não existe almoço grátis obriga os eleitos e beneficiários destas vultosas contribuições a retribuir as doações. Temos de encontrar um meio termo em relação à captação de recursos junto à iniciativa privada. Do jeito que está não dá. Mas o financiamento público também é injusto, pois não temos recursos para as carências essenciais da vida brasileira. Além do mais, o que impedirá que clandestinamente haja contribuições para os candidatos que estiverem mais afeiçoados na defesa dos grandes interesses privados?

JC – Como se poderia encontrar esse meio termo?

Lasier –
 Acho que tem que diminuir o tamanho das ofertas, estabelecer um limite. Nenhum candidato pode receber mais do que um valor “x”, reunidos todos os doadores. É inadmissível, como estamos vendo agora, a presidente Dilma recebendo bilhões, é a que mais está recebendo. Aqui no Estado, o candidato à reeleição é o que mais recebe. Os partidos pequenos não recebem praticamente nada, então, se for estabelecido um teto, iguala um pouco mais.

JC – Isso garante que não vai haver retribuição?

Lasier –
 Acho que não, porque estabelecendo limites o candidato vai perceber que ele não tem grande obrigação, porque se o empresário doar R$ 300 mil no máximo, isso não vai significar obrigação. Para fins de uma eleição, isso é pouco significativo. Da mesma maneira que também não concordo com a lista fechada, que é voltar ao voto de cabresto, pois as cúpulas decidem quais candidatos devem ser colocados na ponta da lista.

JC – O que acha da regulação da mídia?

Lasier –
 Há por trás disso a ideia de limitar a liberdade de imprensa. Acho um atraso. Sobre alguns órgãos serem mais poderosos do que outros, é porque são mais competentes. Vivemos em uma economia de mercado, então, há alguns veículos que pagam melhores salários, espalham mais sucursais e emissoras. Isso é competência.

Perfil

Lasier Costa Martins nasceu no município de General Câmara, em 1942. Aos 16 anos de idade, iniciou sua trajetória no rádio, em Montenegro, e fez carreira na imprensa gaúcha. Já instalado em Porto Alegre, ingressou na equipe de esportes da rádio Difusora, aos 17 anos. A partir de 1961, trabalhou na rádio Guaíba, onde permaneceu por 24 anos. Em 1986, deixou o veículo para entrar no grupo RBS, no qual atuou como âncora de telejornal, comentarista e apresentador, com participação na RBSTV e na rádio Gaúcha. Sua entrada na política ocorreu em outubro do ano passado, quando se desligou da RBS para se filiar ao Partido Democrático Trabalhista (PDT), pelo qual se lançou candidato ao Senado Federal, na chapa majoritária composta por Vieira da Cunha (PDT) e Flávio Gomes (PSC). Lasier também é advogado, formado em Direito pela Ufrgs. Exerceu a profissão por 20 anos, mas deixou de advogar para dedicar-se exclusivamente ao jornalismo. 

JULIO FLORES DEFENDE UMA ALTERNATIVA DE ESQUERDA PARA O BRASIL

Jornal do Comércio 20/08/2014

Para Julio Flores, Brasil precisa de uma alternativa de esquerda


Eduardo Amaral

GILMAR LUÍS/JC
Julio Flores defende que o Brasil precisa de uma alternativa de esquerda
Julio Flores defende que o Brasil precisa de uma alternativa de esquerda
Candidato ao Senado pelo Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU), Julio Flores defende que o Brasil precisa de uma alternativa de esquerda. Forte crítico dos governos dos petistas Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff e da gestão do tucano Fernando Henrique Cardoso, o político mantém, após mais de 30 anos de militância, o discurso do começo da vida política, em 1979.

Em 2014, vai para sua décima eleição, tendo concorrido a diversos cargos sem ter sido eleito. Em 2004, quando concorreu a vereador de Porto Alegre, chegou a receber mais votos que concorrentes eleitos, porém, em razão da cláusula de barreira, não assumiu.

Nesta entrevista ao Jornal do Comércio, Julio Flores critica a polarização existente entre representantes da direita e o PT, que se coloca, segundo ele, como sendo de esquerda. Para o candidato, os dois partidos representam o mesmo projeto.

Jornal do Comércio - O que as candidaturas do PSTU trazem de diferente para o cenário eleitoral?

Julio Flores –
 Nós achamos que a nossa Frente de Esquerda (coligação entre PSTU e P-Sol no Estado), o PSTU em particular, é o que faz a diferença. Porque todos os demais partidos de uma maneira ou de outra já governaram o Estado e o País, e governaram pros ricos sempre. E a nossa proposta é justamente que a gente tenha um governo a nível nacional, um governo dos trabalhadores, que rompa com a lógica de dominação sobre o povo, que tem sido os governos tanto PSDB, com Fernando Henrique, como de Lula e Dilma. São governos que efetivamente têm governado para os ricos, o próprio Lula não cansa de alardear que nunca os banqueiros e os empresários ganharam tanto quanto sob os governos do PT. Todo aquele propósito inicial de um governo dos trabalhadores, de governar para o povo, tem sido objetivamente desmentido por parte do próprio PT. Faz 12 anos que eles estão governando o país e o que a gente observa é que eles tem governado pros ricos. A diferença é que nós, do PSTU, agora em aliança com o P-Sol, aqui no Rio Grande do Sul, temos o propósito de fazer esse debate. O debate de que é necessário romper com essas amarras e estabelecidas pelo capital internacional e fazer mudanças profundas, porque é a única maneira de resolver o problema da miséria, da fome, do analfabetismo, da opressão às mulheres, aos negros, aos homossexuais.

JC - A disputa para o Senado, até o momento, está polarizada entre Olívio Dutra (PT) e Lasier Martins (PDT). Como o PSTU entra nesse embate?

Julio Flores –
 Do mesmo modo que tem essa falsa polarização entre Ana Amélia (PP) e Tarso (PT), tem também no senado uma outra polarização. E veja você que a RBS tem importância nas duas disputas, Ana Amélia foi funcionária da RBS durante anos e o Lasier Martins (PDT) também. A RBS está nesse disputa e o PT está nessa disputa. Então há uma disputa que do meu ponto de vista é uma falsa polarização, porque uns entendem que o PT é esquerda e a RBS, com a Ana Amélia e o Lasier Martins são a direita. E de fato isso não existe, eles têm o mesmo programa.

JC - Há quatro anos, se elegeram os senadores Ana Amélia (PP) e Paulo Paim (PT). O P-Sol, que está coligado com o PSTU, concorria, mas, em dado momento da campanha, para diminuir a ameaça da candidatura de Germano Rigotto (PMDB) a Paim, que tentava a reeleição, o P-Sol optou por se retirar e apoiar o petista. Isso pode acontecer agora?

Julio Flores –
 Eu acho que, em primeiro lugar, a decisão do P-Sol foi errada na época. Eles tomaram uma decisão de apoiar o Paim. Mas o Paim, apesar de parecer ser um sujeito que defende a aposentadoria, os aposentados, de fato, ele reforça todo esse governo que o PT tem desenvolvido nos anos todos. Então, foi errada a decisão, tanto é que não só nós entendemos isso como vários companheiros da frente que apoiavam o Olívio, apoiavam o PT, votaram na nossa companheira Vera Guasso significativamente naquela ocasião. Dentro do P-Sol, inclusive, e dentro da própria Frente Popular, vários companheiros se posicionaram favoravelmente a nossa candidatura ao Senado. Hoje, não creio que seja igual, mas é parecido, e essa coisa do voto útil. E isso interessa ao próprio PT e à Frente Popular, polarizar com a direita para que o PT possa se favorecer. O projeto de todos eles é resolver o problema dentro do regime atual, passar por dentro do processo de dominação do capital sobre o trabalho a partir das instâncias superiores, a Câmara Federal, o Senado, a presidência da República, o governo do Estado. Então eles não propõem nenhuma mudança substancial.

JC - Como está a relação com o P-Sol?

Julio Flores –
 Felizmente, nós conseguimos aqui com o (candidato a governador Roberto) Robaina (P-Sol) e comigo, ao Senado, uma coligação completa, estabelecer um programa mínimo de oposição ao governo, porque nós não queremos nem que a direita volte e nem que a Frente Popular siga. Nós queremos ser a terceira, a opção nesses dois campos de polarização que eles estão colocando com Ana Amélia e Tarso, Lasier (Martins, PDT) e Olívio. A verdadeira esquerda, tanto que meu lema para o Senado é: “Esquerda de verdade”.

JC – Não é a sua primeira eleição, não teme, em algum momento, se tornar um personagem folclórico?

Julio Flores –
 Não, pelo contrário, essa firmeza de ideias que o PSTU tem é uma virtude nossa. O que pode virar folclore é o fato de as pessoas verificarem que o Lula não é mais de esquerda, isso é uma piada. Porque quando o sujeito governou o País, foi eleito, fez alianças com Deus e Diabo. Aí eu pergunto, foi para isso que a gente elegeu o Lula? Não foi. Foi para mudar a vida das pessoas, acabar com a miséria, acabar com a exploração, com a acumulação de capital e a concentração de terras. Então,isso vai virar folclore, porque a origem do PT foi justamente o contrário. Hoje, ele está dizendo que o burguês não tem do que se queixar. Isso é ridículo, isso engendra folclore. Isso é uma piada. O PSTU só está resgatando aquilo que foi o propósito do inicial do PT e da CUT. O nosso propósito é fazer uma revolução social, é mudar a estrutura social do País.

JC – A crítica ao PT não pode se repetir em relação ao PSTU quando este chegar ao poder?

Julio Flores –
 Não há nenhuma garantia, a única garantia que existe é, primeiro, as nossas convicções. Mas também a nossa história, para teres uma ideia, nós rompemos com o PT em 1992, nós éramos favoráveis a levar às ruas a campanha pelo Fora (Fernando) Collor, e o José Dirceu (PT) foi o cara que operou toda a expulsão da Convergência Socialista (antiga corrente do PT que deu origem ao PSTU) que na época defendia o Fora Collor, e eles eram contra. Não há vacina para isso, a única vacina é a convicção e a relação objetiva que a gente estabelece com todas as organizações. Por exemplo, o principal mecanismo de cooptação existente hoje são os salários dos deputados, senadores e vereadores. E para nós o salário de um deputado nosso, como a nossa companheira Amanda (Grurgel, vereadora em Natal) e do Cleber (Rabeleo, vereador em Belém) são vereadores nossos, mas eles não ganham mais do que ganhavam antes de serem eleitos. Eles ganham o salário de origem. Em contrapartida, mesmo que o deputado ganhe R$ 20 R$ 30 mil, o resto vai para o fundo do partido para apoiar as lutas dos trabalhadores. Então, o mandato não é um privilégio.

JC – Como explicar para a população essa destinação de parte do salário para um fundo partidário?

Julio Flores –
 Eu acho que é simples, não tem muito drama nisso. Ao invés de o salário enriquecer o parlamentar, vai para o fundo para ajudar a luta dos trabalhadores. Então, isso tem simplicidade, não tem muito o que questionar, porque esse é o nosso propósito. Se tem uma greve, tem uma ocupação, tem uma luta, o PSTU não vai titubear no que vai fazer com esse dinheiro. Isso não vai para enriquecer as pessoas, o partido, ela vai estar em serviço da construção do próprio partido, mas principalmente no fortalecimento da luta do povo.

Perfil

Professor de matemática, Julio Flores tem 55 anos, nasceu em São Borja e iniciou a militância no movimento estudantil em 1979. Militante do PSTU desde a sua fundação, também participou da fundação do PT, partido do qual foi expulso em 1992. Nas eleições estaduais, concorreu a governador em 2002 e 2010. Em 2014, concorrerá ao Senado pela segunda vez. Em 1998, fez pouco mais de 24 mil votos, quando estreou na disputa pela vaga ao Senado.

domingo, 17 de agosto de 2014

ELEIÇÕES 2014. A CAMPANHA NA TELINHA


ZERO HORA 16 de agosto de 2014 | N° 17892

CLEIDI PEREIRA

AS ESTRATÉGIAS PARA A ESTREIA NA TV

OS PROGRAMAS PRESIDENCIAIS, na terça-feira, serão marcados por homenagens a Campos. Na quarta, começa a propaganda para o Piratini



Em clima de luto e tributo. Assim será a largada da campanha no rádio e na TV na terça-feira, após a morte de Eduardo Campos. Não fosse o acidente aéreo, o candidato do PSB seria o primeiro a aparecer no horário eleitoral.

Com vazio provocado pela perda do seu principal líder, o PSB deve dedicar ao menos o primeiro programa para homenagear Campos. Os demais partidos e coligações que disputam o Planalto devem fazer o mesmo. Na propaganda de Dilma Rousseff (PT), a expectativa é de que o ex-presidente Lula, que era amigo de Campos, fale a respeito do socialista.

Na disputa pelo governo do Estado, no programa de quarta-feira, Ana Amélia Lemos (PP), José Ivo Sartori (PMDB) e Vieira da Cunha (PDT) também irão homenagear Campos.

De acordo com a presidente da Associação Latino-americana de Consultores Políticos, Gil Castilho, a propaganda na TV deve ter um peso ainda maior nestas eleições, devido ao número de indecisos, nulos e brancos. Conforme a última pesquisa Ibope, esse grupo de eleitores chega a 24%. Em 2010, à mesma época, o índice era de 19%.

– A TV ainda tem um impacto imenso no Brasil, e a estreia é o momento em que os candidatos se apresentam, dão o tom da campanha e mostram a que vieram. Há toda uma expectativa em relação às primeiras aparições – diz Gil.




Ana Amélia mostrará suas origens


Conhecida por sua carreira no jornalismo, Ana Amélia Lemos (PP) irá dedicar seus três primeiros programas de TV para mostrar aos eleitores os principais momentos de sua trajetória pessoal e profissional. Segundo Ricardo Bottega, diretor de criação da campanha da senadora, a ideia é apresentar as origens humildes da candidata, dar visibilidade ao seu trabalho no Congresso e explicar por que ela aceitou concorrer ao Palácio Piratini.

Esperança e mudança serão as palavras-chave da campanha na TV, que também terá muitas imagens fora de estúdio. A senadora, segundo assessores, não mudou seu guarda-roupa em função do horário eleitoral, no qual deve aparecer com seus característicos trajes discretos em tons mais sóbrios. Estrategistas da candidatura também apostam na desenvoltura da senadora diante das câmeras como um diferencial em relação aos demais concorrentes.

O PP estuda formas de exibir imagens de Aécio Neves (PSDB) em sua propaganda, apesar de estar impedido pelo fato de a sigla estar nacionalmente ao lado de Dilma Rousseff (PT).


Sartori vai expor gestão em Caxias


Dono do segundo maior tempo de TV, José Ivo Sartori (PMDB) tem o desafio de superar o desconhecimento do eleitorado em relação ao seu nome. Por isso, o foco da largada será a trajetória do candidato, que já foi deputado estadual, presidente da Assembleia Legislativa e prefeito.

Coordenador de marketing da campanha, o jornalista Marcos Martinelli conta que o primeiro programa também servirá para “prestar contas” do que foi realizado por Sartori na administração de Caxias do Sul em dois mandatos. O objetivo é apresentar o peemedebista como um gestor preparado, reforçando o slogan do “gringo que faz”.

Além de destacar ações em áreas como saúde, educação e infraestrutura, serão feitas comparações mostrando que o candidato solucionou em Caxias problemas semelhantes aos enfrentados pelo Estado. Segundo Martinelli, no decorrer dos programas, Sartori deverá apontar os principais desafios do Rio Grande do Sul, mas também indicar saídas. Imagens captadas na rua, com o candidato em contato com os eleitores, também serão bastante exploradas.




Tarso apostará em obras e pessoas


O otimismo em relação à situação atual do Estado dará o tom dos programas do governador Tarso Genro (PT), que busca algo inédito no Rio Grande do Sul: a reeleição ao Palácio Piratini.

Com uma estética mais “naturalista e documental”, as propagandas de TV do petista mostrarão o que o governo realizou e contarão com muitas imagens gravadas fora de estúdio, principalmente de obras e pessoas beneficiadas por programas do governo. Na estreia, irão ao ar cenas registradas em várias regiões do Estado. Segundo o coordenador de comunicação da campanha, João Ferrer, o objetivo é “retratar da melhor forma possível a realidade”.

Imagens da presidente Dilma Rousseff – que tem no Rio Grande do Sul índices de intenção de voto melhores do que sua média nacional – também serão bastante exploradas, mas com maior intensidade nos programas subsequentes. Como Dilma e o ex-presidente Lula estarão no Estado no dia 22 para participar de um ato no Gigantinho, o evento é considerado estratégico para a tomada de cenas que serão exibidas nas propagandas petistas.


Vieira vai largar com propostas


Experiência, posição e verdade serão as palavras mais utilizadas e que também darão a tônica da campanha do deputado federal Vieira da Cunha (PDT). De acordo com o coordenador de estratégia da candidatura, Fabner Utida, os primeiros programas apresentarão o trabalhista como um candidato com ampla bagagem de gestão pública e sem “nenhum arranhão” em sua trajetória política.

Além da atividade parlamentar, serão destacadas as passagens de Vieira pelo comando do Departamento Municipal de Limpeza Urbana (DMLU), nos anos 1980, e da Companhia Estadual de Energia Elétrica (CEEE), na década de 1990.

Para compensar o menor tempo de TV entre os principais candidatos ao Piratini, propostas já serão apresentadas na largada do horário eleitoral. Entre elas, ações nas áreas de saúde, segurança e educação, como as escolas em tempo integral – uma tradicional bandeira do PDT. Assim como nos debates, Vieira deve continuar sendo um dos candidatos com a postura mais crítica em relação à gestão de Tarso Genro, apesar de o PDT ter participado do governo.




Robaina sem “dramaturgia”


Devido ao baixo orçamento e ao escasso tempo de TV, os programas de Roberto Robaina (PSOL) irão girar em torno de propostas, “sem musiquinha e teledramaturgia”, segundo ele.

Entre os temas que ganharão destaque, o pagamento do piso do magistério, a reativação do Laboratório Farmacêutico do Estado (Lafergs), o combate à privatização da saúde e a defesa de uma auditoria da dívida pública do Estado.

O primeiro programa também vai ser dedicado à biografia de Robaina. A apresentação será feita pela candidata da sigla à Presidência, Luciana Genro, companheira de militância de Robaina desde a década de 1980, quando ambos estudavam no Colégio Júlio de Castilhos.

Cenas dos protestos de 2013 também ilustrarão a campanha do candidato do PSOL, associadas ao mote “o povo acordou”.



sexta-feira, 15 de agosto de 2014

CANDIDATO COMUNISTA À PRESIDÊNCIA PROPÕE EXTINÇÃO DA PM

NOTÍCIAS TERRA, 08 de agosto de 2014 • 18h49 • atualizado às 18h57



Keka Werneck
Direto de Cuiabá (MT)


Mauro Iasi citou as origens da corporação para pedir seu fim
Foto: Keka Werneck / Especial para Terra



Em passagem por Cuiabá (MT) nesta sexta-feira, o historiador Mauro Iasi, candidato a presidente da República pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB), defendeu a extinção da Polícia Militar, que, na opinião dele, “produz um genocídio, principalmente de pretos e pobres no País”.

Na capital matogrossense fazendo campanha eleitoral, Iasi rechaçou o modelo da corporação e afirmou que o alto índice de homicídios e a criminalização das manifestações populares são exemplos de consequências de um sistema militar fora de controle.

“A Polícia Militar perdeu o controle da situação e 70% dos próprios integrantes da PM querem a desmilitarização da corporação. Mas nós vamos mais além e queremos é a extinção”, afirmou Iasi, que é professor de Sociologia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Segundo ele, a origem da PM é a guarda nacional, criada para reprimir escravos foragidos. “No período da ditadura, teve novamente um papel no combate aos chamados subversivos e agora, nas manifestações populares, tem agido de modo desproporcional”, explicou.

A violenta e discriminatória abordagem da PM, na opinião dele, é outro indicador de que “não dá mais”. O candidato contou um caso para ilustrar esse problema. “Um professor universitário conhecido meu, negro, estava pintando a própria casa, em um bairro de classe alta, e por isso vestia uma roupa suja, por causa do trabalho que estava fazendo. Parou para descansar na varanda, quando um carro da PM passou e viu a cena. O professor foi preso, levado para a delegacia, porque não acreditaram nele quando disse que morava ali."

O historiador admite que dentro da corporação possam ter profissionais que atuam com responsabilidade. “Mas mesmo em cima desses, a corporação exerce uma pressão muito perversa e eles são obrigados a se adequar ou acabam doentes ou expulsos."

Para reencaminhar os quadros de concursados da corporação, o professor entende que deveriam migrar para a Polícia Civil. Embora o policiamento militar seja uma atribuição dos Estados, Iasi acredita que o governo federal tem a responsabilidade de sugerir aos governadores que tomem essa atitude.

O formato da PM, para o candidato, se sustenta em um tripé falido: endurecimento das penas, repressão e encarceramento. “Esta é uma escolha errada, segurança não se garante dessa forma. Se você entrar nas favelas, vai sentir que a população não quer mais esse tipo de policiamento."

Uma parte da população brasileira, no entanto, pede mais policiamento. “É uma visão conservadora e preocupante, porque é possível compreender como a PM age, mas jamais justificar e manter.”

A extinção da PM é uma das propostas que o candidato tem levado às cidades. O programa dele segue cinco eixos: desmercantilização da vida e a estatização de serviços básicos, incluindo moradia; reversão das privatizações, baseando-se nas irregularidades dos processos de venda; criação de condições políticas para efetivar mudanças reais, através da democracia real e do exercício direto do poder popular; ampliação da garantia de direitos, principalmente dos mais ofendidos, como negros, mulheres, homossexuais, trabalhadores escravizados e outros segmentos desfavorecidos; e observar a dimensão internacional do Brasil e suas relações exteriores no contexto mundial.

Mauro Iasi fará palestra na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) nesta sexta-feira, às 19h, sobre as últimas mobilizações sociais no Brasil. “Uma bomba relógio que explodiu em 2013”, diz ele. “O transporte foi só o nervo mais exposto”, considerou, se referindo ao movimento “não é pelos 20 centavos”.

Sobre os manifestantes mascarados, disse que “ainda que a gente discorde da prática black blocs, não defendemos a criminalização deles, porque tememos que eles sejam na verdade uma janela para criminalizar os movimentos sociais como um todo”.

O candidato afirma que não se incomoda com o baixo índice de intenção de votos que tem e acredita que possa aproveitar esse período eleitoral para propor o debate sobre “temas ausentes”.

terça-feira, 12 de agosto de 2014

FOCO DEDILMA SERÁ NAS OBRAS


zero hora 12 de agosto de 2014 | N° 17888


POLÍTICA + | Rosane de Oliveira




A entrevista de Dilma Rousseff no Painel RBS com os candidatos à Presidência da República dá uma pista do que será o eixo dos seus programas na propaganda eleitoral: foco nas obras dos últimos quatro anos e dos oito do governo Lula. Dilma acha que o Brasil não conhece nem metade do que a gestão dela fez e considera o horário eleitoral o verdadeiro início da campanha. Com mais tempo de TV do que os adversários, diz que analisa as pesquisas com um olhar diferente da visão dos jornalistas: em vez de se ater às intenções de voto, dá mais valor à tendência e às qualitativas, que mergulham na alma do eleitor.

Uma hora de entrevista não foi suficiente para abordar todos os temas que estão na ordem do dia e falar das propostas para um eventual segundo mandato. Dilma continuou a conversa por mais meia hora na biblioteca do Palácio da Alvorada.

Fora do ar, questionou a isenção do relator do caso Petrobras no TCU, ministro José Jorge, e sugeriu que ele deveria se declarar impedido de tratar da estatal, porque foi um dos líderes do antigo PFL e titular do Ministério de Minas e Energia no governo Fernando Henrique, em 2001, quando a plataforma P-36 afundou. Os petistas também associam o nome de José Jorge a uma ruinosa troca de ações com uma subsidiária da Repsol, na Argentina, em que a Petrobras teve um prejuízo estimado em US$ 2,5 bilhões.

Na conversa informal, a presidente lamentou não ter conseguido realizar a reforma política. Disse que, na campanha, vai reapresentar a proposta de um plebiscito, por estar convencida de que, sem participação e pressão popular, o Congresso não votará a reforma política.

Dilma riu das promessas dos adversários de reduzir à metade o número de ministérios:

– Eles disseram quais pretendem cortar?

Na avaliação da presidente, todas as 39 pastas têm um papel a cumprir, e até a Secretaria da Pesca é considerada estratégica.

Os prefeitos, vices e vereadores da coligação O Novo Caminho Para o Rio Grande, reunidos ontem em Porto Alegre, receberam o recado: a candidatura de José Ivo Sartori (PMDB) é de oposição ao governo Tarso Genro. Embora o conceito pareça uma obviedade, visto que Sartori rejeitou o apoio do partido a Dilma – preferiu Eduardo Campos (PSB) – e o PMDB faz forte oposição a Tarso na Assembleia, alguns apoiadores do ex-prefeito de Caxias do Sul ainda não haviam entendido o seu discurso.

– Precisamos nos apresentar à sociedade gaúcha como oposição. Foi uma reunião de alinhamento de discurso político. Precisamos expressar melhor o que defendemos – explicou o coordenador da campanha de Sartori, o vice-prefeito de Porto Alegre, Sebastião Melo.

Apesar de a maioria do partido estar a par da posição contrária de Sartori à aliança com Dilma quando apostou na sua candidatura, uma fatia da sigla ainda prefere apoiar a petista. Na sexta-feira, o vice-presidente, Michel Temer (PMDB), vem à Capital lançar um comitê da campanha de Dilma no Estado.