sábado, 18 de outubro de 2014

A MENTIRA COMO ARMA

REVISTA ISTO É N° Edição: 2343 | 17.Out.14


Os dois candidatos fazem ataques e denúncias e usam dados que o adversário tenta desmentir. Mas levantamento de ISTOÉ mostra que, na tática de distorcer dados, a campanha de Dilma tem ultrapassado todos os limites


Izabelle Torres




Poucas vezes na história se viu uma campanha eleitoral tão agressiva e repleta de disputas de números distorcidos, acusações e um festival de mentiras. A competição entre os candidatos Aécio Neves (PSDB) e Dilma Rousseff (PT) acirrou ainda mais o clima de animosidade dentro das campanhas. O tratamento entre os candidatos nas aparições públicas, especialmente nos debates, deixa claro que a mais aguerrida eleição presidencial transformou os adversários políticos em inimigos ferrenhos. Como aconteceu no primeiro turno, quando o PT investiu na desconstrução da candidata Marina Silva (PSB), o alvo agora é Aécio. Em vez de apresentar projetos para tirar o País da estagnação, Dilma optou por um gesto de desespero para virar o jogo e adota a estratégia da desconstrução do adversário, mesmo que o custo disso seja a divulgação de dados imprecisos e inverídicos. A disputa fica mais acirrada porque as estruturas de campanha cresceram absurdamente, estão mais profissionais e, a cada ano, mais caras. As guerrilhas virtuais contratadas para alimentar notícias, boatos e até calúnias loteiam as redes sociais com o tom da guerra em andamento. Para esclarecer aos eleitores o que há de verdade nos ataques trocados entre os candidatos, ISTOÉ se debruçou nos dados oficiais e em estudos sobre alguns dos temas mais recorrentes nessa disputa. O resultado (ver quadro) é um retrato evidente de que a candidata Dilma Rousseff tem se valido muito mais de informações falsas para acusar seu adversário do que o contrário.


FRENTE A FRENTE
Candidatos Dilma Rousseff e Aécio Neves elevam o tom na reta final da campanha

Em alguns casos, a adulteração dos fatos de maneira fraudulenta deixa clara a intenção de ludibriar o eleitor. Um vídeo distribuído amiúde pelos petistas é uma prova do estratagema matreiro adotado pela campanha do PT. Na gravação, Aécio Neves aparece votando contra o projeto de valorização do salário mínimo em 2011, na sessão do Senado de 23 de fevereiro daquele ano. O vídeo distribuído nas redes sociais sofreu uma edição, com cortes dos minutos que antecedem a votação. A versão completa conta com o discurso do então líder do PSDB, Álvaro Dias (PR), e do próprio Aécio Neves, explicando que os tucanos votariam contra a proposta porque o texto estabelecia salário de R$ 545 e eles defendiam um reajuste para R$ 600, um valor maior do que a proposta governista. A oposição foi derrotada por 55 x 17 e o salário fixado foi o valor desejado pelo governo. No debate da quinta-feira 16, Aécio fez referência ao vídeo para ilustrar a campanha de mentiras que ele acusa o PT de fazer.

O debate foi o resumo da guerra travada entre os candidatos. Em vez da disputa de propostas e ideias, o encontro entre os dois envolveu denúncias de nepotismo, corrupção e, também, calúnias. Os presidenciáveis acusaram várias vezes o oponente de mentir. Apesar do tiroteio mútuo, na reta final da campanha, a estrutura de marketing do PT é inegavelmente quem mais investe pesado para desconstruir o adversário e despertar na sociedade um sentimento de medo de futuros tempos difíceis, com inflação descontrolada e desemprego em alta. Dilma afirma, por exemplo, que os governos do PSDB nunca investiram em programas sociais e não priorizaram os pobres, como faz o PT, que tirou 32 milhões de pessoas da pobreza e criou um mercado de consumo de massa. Na verdade, o governo Fernando Henrique Cardoso criou pelo menos 12 programas de transferência de renda. Em 2001, o governo gastou cerca de R$ 1,8 bilhão com os programas Bolsa Alimentação, Peti (Programa de Erradicação do Trabalho Infantil), Bolsa Escola e Brasil Jovem. No ano seguinte, com a implantação do Vale Gás, o gasto foi a R$ 3,5 bilhões. Isso sem contar que o Bolsa Família, carro-chefe da política social do PT, é resultado da fusão e ampliação de todos os programas que já existiam desde os governos do PSDB. A campanha petista, com grande contribuição da presidenta Dilma Rousseff, também investe pesado para reduzir a credibilidade do economista Armínio Fraga, anunciado pelo candidato tucano como futuro ministro da Fazenda, caso ele seja eleito. No discurso eleitoral, Dilma insiste em que a escolha feita por Aécio representa o sinal de que, para controlar a inflação, serão feitos cortes que custarão os empregos dos brasileiros. Os ataques feitos a Fraga são dissonantes do que diziam os petistas em 2002 e 2003, quando herdaram a política econômica do governo tucano. Na época, Lula disse que o então presidente do BC era “competente”. Em seu livro, “Sobre Formigas e Cigarras”, o ex-ministro da Fazenda de Lula e da Casa Civil de Dilma, Antonio Palocci, reconhece que o PT até cogitou manter Armínio por alguns meses à frente do Banco Central, quando o partido ascendeu ao poder.

DEBATE DE OFENSAS



ZH 18 de outubro de 2014 | N° 17956


EDITORIAL


Os pretendentes ao Palácio do Planalto, os partidos, a política e o país perdem com a agressividade que caracterizou o mais recente confronto na TV.


É lamentável o saldo do mais recente debate entre os candidatos à Presidência. Os dois pretendentes ao mais alto cargo do país ofereceram aos eleitores – e também a adolescentes que ainda não votam – um péssimo exemplo de conduta pública. A impressão que ficou para o telespectador, após o confronto transmitido pelo SBT, na quinta-feira, é a de que nenhum dos dois tem idoneidade moral e equilíbrio emocional para comandar o país. Os candidatos se encarregam de ampliar a desqualificação do oponente, a começar pela lista de episódios que, de acordo com suas interpretações, definem o caráter de cada um. A constatação mais óbvia, oferecida pela presidente e por seu opositor, aponta para o despreparo ético de ambos. Para a população, não há medida capaz de indicar quem, afinal, seria mais conivente com a corrupção, com desmandos administrativos e com o nepotismo.

O eleitor merece uma campanha mais elevada, em respeito à sua capacidade de perceber que o destempero esconde a falta de seriedade na apresentação de propostas. Sabia-se, por antecipação, pelo clima bélico que caracteriza o segundo turno, que os debates seriam tensos. O confronto, no entanto, foi muito além da tensão e terminou por repetir, entre duas pessoas esclarecidas, boa parte do que é reproduzido nas redes sociais.

As acusações, mesmo que possam estar presentes nessas ocasiões, não podem ocupar todo o tempo de um encontro promovido para o esclarecimento de posições. Os programas, até agora com esboços precariamente formulados, ficam ofuscados por uma agressividade características de discussões estudantis.

Em vez de receber subsídios que possam resolver as grandes questões do país, o eleitor passa a testemunhar as tentativas de desmonte de reputações. Os candidatos se transformam em protagonistas do rebaixamento do debate e da política como expressão legítima da democracia. Assiste-se à perda de referências moralizadoras da atividade pública, num momento em que deveria ocorrer o contrário.

Os políticos e os partidos, no ambiente único de uma eleição presidencial, dedicam-se à desqualificação da própria atividade e oferecem mais razões aos que passam a desacreditar no atual modelo de representação e nas instituições. Para conter esse vale-tudo, quando ainda faltam uma semana para o pleito e pelo menos dois debates televisivos, seria oportuno que as lideranças partidárias mais sensatas propusessem um acordo de civilidade e de elevação do nível de um debate até agora deseducador.

DEBATE ENTRE TARSO E SARTORI NA BANDEIRANTES

REVISTA VEJA 17/10/2014 - 07:35


Eleições 2014. No debate entre Tarso e Sartori no RS, sobrou até para as mães

Em busca de fôlego na reta final da campanha, o petista repetiu durante o debate a estratégia de atacar o adversário e seu programa de governo

Marcela Mattos, de Porto Alegre




Ivo Sartori e Tarso Genro (Fernando Teixeira/Folhapress)

A dez dias das eleições, o debate realizado entre os candidatos ao governo do Rio Grande do Sul inaugurou uma batalha para além das propostas de governo e foi parar dentro de casa: mais especificamente, nos conselhos dados pelas mães dos políticos. Durante encontro realizado pela TV Bandeirantes nesta quinta-feira, o governador Tarso Genro (PT), candidato à reeleição, e seu adversário José Ivo Sartori (PMDB) protagonizaram uma sequência de alfinetadas ao relacionarem algumas decisões políticas às dicas dadas pelos familiares.


Tarso Genro deu início à confusão: ao afirmar que o peemedebista fugia às perguntas, o petista evocou as palavras da mãe: “Ela aconselhou que eu não debatesse só o futuro, mas também o passado. Eu tenho orgulho de ter sido ministro da Justiça e da Educação. Mas o senhor, a cada vez que a gente fala que seu partido é responsável por algo, se sente ofendido”, disse o governador gaúcho.

A referência familiar foi propositada. Sartori colocou a mãe para encerrar a primeira propaganda eleitoral do segundo turno, veiculada no último sábado. Na televisão, ‘Dona’ Elsa apareceu dando conselhos: “Faz como eu te ensinei: não brigar, não falar mentira, não criticar os outros. Te mando um beijo e boa sorte pra ti”, afirmou. Sartori rebateu a provocação do petista: “Nós apresentamos um programa de governo e agora me cabe fazer perguntas. Eu nunca dissimulei nada. Se a minha mãe me ensinou alguma coisa, ela não foi induzida a fazer nada. Ela disse para eu responder todas as perguntas, mas eu não acho que tenho que transmitir ao Rio Grande do Sul todas as culpas dos problemas do passado”, disse, fazendo referência ao fato de que Tarso reiteradamente vincula o peemedebista aos problemas enfrentados em governos aos quais foi aliado, como o de Yeda Crusius (PSDB) e o de Pedro Simon (PMDB).

O Rio Grande do Sul protagonizou um dos mais surpreendentes resultados nas urnas. Em terceiro lugar em todas as pesquisas eleitorais, o ex-prefeito de Caxias do Sul Ivo Sartori foi ao segundo turno com 40,4% dos votos válidos – Genro teve 32,5% e a senadora Ana Amélia (PP), que no início da corrida eleitoral era tida como favorita, 21,7%. De acordo com o último Datafolha, Sartori continua liderando as pesquisas: está com 60%, contra 40% do atual governador.

Em busca de fôlego na reta final da campanha, Tarso repetiu durante o debate a estratégia de atacar o adversário e seu programa de governo. Com o Estado assolado por uma dívida que gira em torno de 50 bilhões de reais, o petista afirmou que Sartori não diz como vai financiar as políticas voltadas para a saúde, a educação e segurança. “O que existe por parte do meu adversário é o não dizer, o não programa, uma dissimulação de quem não tem assunto para resolver os problemas do Rio Grande do Sul”. O peemedebista rebateu: “Tarso, um pouco de respeito fica bem em qualquer lugar e é bonito. Aliás, o senhor fica sempre olhando pra trás. Quando não serve, a culpa é dos outros. Quando serve, assume para si o que os outros iniciaram. Isso não é a boa política”, disse o peemedebista.

Já no final do encontro, as mães voltaram a ser citadas: “Está na hora de o Rio Grande se unir em torno de si mesmo e parar com essa pequenez de achar que um está sempre certo e os outros estão errados. Primeiro eu quero ser governador, depois você pode me criticar, dizer o que quiser. Enquanto estamos em um processo eleitoral eu não aceito discriminação. Nunca lhe desrespeitei. O senhor chegou até a brincar com a minha mãe, e eu a considero uma pessoa importante”, disse Sartori. Em tom de deboche, Tarso novamente respondeu: “O senhor é tão autoritário que acha que a sua mãe pode dar conselho e a minha não", afirmou.

Segurança pública - Horas antes do debate, um soldado que cuidava da segurança pessoal de Sartori foi assassinado dentro de um ônibus. O ocorrido foi citado após Tarso ser questionado sobre segurança pública e afirmar que houve avanços no combate aos homicídios. Sartori rebateu lamentando o assassinato e disse que no governo do petista "todos os indicadores apontam para o aumento da criminalidade". Sem direito a tréplica, o governador não comentou o caso. Ainda assim, o episódio gerou desconforto entre os assessores.

Militantes – Em rota de colisão durante os quatro blocos de debate, Sartori e Tarso apenas se igualaram na saída da sede da TV Bandeirantes. Primeiro a deixar o local, o petista fez questão de descer do carro e cumprimentar dezenas de militantes que o esperaram do lado de fora, já quase no início da madrugada. No carro de trás, Sartori fez o mesmo: parou o carro para abraçar e tirar fotos com os apoiadores.

SEGURANÇA MARCA DEBATE TARSO E SARTORI NO SBT



ZH 18 de outubro de 2014 | N° 17956


ELEIÇÕES 2014. CORRIDA AO PIRATINI. Segurança marca debate entre petista e peemedebista na TV



No quarto debate do segundo turno no Estado, José Ivo Sartori (PMDB) e Tarso Genro (PT) protagonizaram um embate mais propositivo do que os encontros anteriores, caracterizados pelas acusações de que o governador só enxergaria o passado e de que o peemedebista não teria propostas.

A segurança pública marcou o embate – tema de quatro questões ao longo de uma hora do programa promovido por SBT, portal UOL e Folha de S.Paulo.

Na primeira rodada, o ex-prefeito quis saber do governador como ele “vê a questão da segurança”. O petista apontou o que considera avanços da área no Estado, citando iniciativas como melhorias salariais a policiais, a Patrulha Maria da Penha e o policiamento comunitário.

Tarso aproveitou para questionar o adversário sobre o Policiamento Orientado para a Solução de Crimes, descrito no plano de governo do pemedebista. O governador perguntou que avanços a proposta poderia trazer em relação ao policiamento comunitário existente. Sartori rebateu:

– O policiamento comunitário que temos no Rio Grande do Sul se deve muito aos municípios.

O cercamento eletrônico da Grande Porto Alegre com câmeras de segurança e a situação das penitenciárias também foram temas abordados. Tarso acusou Sartori de pedir que os gaúchos “assinem um cheque em branco”. O ex-prefeito respondeu dizendo que “cheque em branco são todas as promessas não cumpridas”.

Na sequência, a dívida com a União entrou em cena. Enquanto o governador defendeu o projeto de renegociação do débito, o peemedebista ressaltou que a arrecadação e o endividamento do Estado seriam maiores em comparação com governos anteriores.

– Não é correta a afirmação de que entregaremos o Estado pior do que recebemos – disse Tarso.

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

SÓ DUAS PROPOSTAS E ATAQUES SEM LIMITE





ZH 17 de outubro de 2014 | N° 17955


ELEIÇÕES 2014. CORRIDA AO PLANALTO


DEBATE ENTRE DILMA E AÉCIO foi marcado por ofensas. Em três blocos, petista e tucano trocaram acusações de nepotismoe de condescendência com a corrupção. Candidato chamou adversária de mentirosa, e ela condenou caso do bafômetro. No segundo debate do segundo turno entre os candidatos à Presidência da República, Aécio Neves (PSDB) e Dilma Rousseff (PT) esqueceram de levar propostas para governar o país.

Em uma hora e 20 minutos de embate no SBT, o tucano e a petista conseguiram apresentar apenas uma proposição cada um, ambas sobre segurança pública: Dilma sugeriu integrar Forças Armadas, Polícia Federal e polícias estaduais como ocorreu na Copa do Mundo e, Aécio falou em criar uma política nacional para o setor com uma barreira ao contingenciamento de recursos para o setor.

O tucano disse que, se eleito, garantirá que os recursos para a área sejam “efetivamente gastos em parcerias com os Estados, transferidos mensalmente”. Dilma prometeu modificações na legislação:

– A Constituição atribuiu aos Estados a segurança interna do país. Quero mudar isso.

No restante do debate, os temas que dominaram foram corrupção e nepotismo. Em apenas dois momentos, os concorrentes falaram de inflação e obras.

O tucano abriu o primeiro bloco questionando Dilma sobre quem seria responsável “por tantos desvios na Petrobras”. Foi o início de uma troca de farpas que se arrastaria até os últimos minutos do debate. Aécio atacou Dilma pelo menos 22 vezes, com ofensas que foram de “incompetente” a “mentirosa”. A candidata à reeleição partiu para o ataque em 16 oportunidades, acusando o adversário de ser mal-informado e lembrando do episódio em que o ex-senador se recusou a fazer o teste do bafômetro, em 2011.

Diante dos ataques frequentes entre os dois candidatos, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) decidiu adotar nova postura em relação ao horário eleitoral. A Corte vai atuar para garantir que o programa seja usado para debater propostas e não para trazer acusações pessoais entre os adversários.



Susto no estúdio


Logo após o debate, que foi o mais acirrado da campanha, Dilma passou mal no meio de uma entrevista ao vivo. A presidente teve uma queda de pressão e, com o auxílio da repórter, precisou sentar. Depois de tomar um copo de água, a petista, que teria se alimentado mal, retomou a entrevista e afirmou que “o debate sempre exige muito”.

NEPOTISMO

Ao falar sobre concursos públicos, Dilma voltou a sugerir que Aécio empregava parentes no governo de Minas Gerais:

– Nunca nomeei parentes para o meu governo, gostaria de saber se o senhor nunca fez a mesma coisa.

Aécio afirmou que sua irmã, Andrea, assumiu o serviço de voluntariado sem remuneração e partiu para o ataque:

– A senhora conhece Igor Rousseff? Seu irmão foi nomeado pelo (então) prefeito Fernando Pimentel no dia 20 de setembro de 2003, e nunca apareceu para trabalhar.

Dilma rebateu afirmando que a irmã de Aécio era responsável pela distribuição das verbas de publicidade do governo e voltou a questionar investimentos em empresas da família do adversário:

– Quanto é que vocês colocaram nas três rádios e no jornal que vocês possuem?

Petrobras

As suspeitas de corrupção na Petrobras abriram o debate. Ao citar o caso mais recente, de irregularidades no Complexo Petroquímico do Rio (Comperj), Aécio listou outras acusações para afirmar que as denúncias “viraram rotina” e questionar Dilma.

A petista afirmou que as investigações só ocorreram porque, no seu governo, a Polícia Federal tem liberdade para agir e questionou investimentos que Aécio teria feito, quando governador de Minas Gerais, em rádios e jornais de sua família. A candidata ainda listou denúncias de corrupção em governos do PSDB, como o caso do metrô de São Paulo:

– Onde estão os corruptos? Todos soltos – afirmou Dilma.

– Se as pessoas estão soltas é porque não foram condenadas, portanto as provas não existiram – devolveu Aécio, que em seguida listou membros do PT que foram condenados pelo mensalão.

TUCANO

No terceiro bloco, foi a vez de Dilma utilizar denúncias na Petrobras para atacar. A petista citou acusação do ex-diretor da estatal, Paulo Roberto Costa, de que o ex-presidente do PSDB Sérgio Guerra (morto em março) recebeu propina para esvaziar uma CPI.

Aécio ironizou a pergunta, afirmando que, pela primeira vez, Dilma dava credibilidade às denúncias na Petrobras. Em seguida, rebateu perguntando porque a presidente não pediu o afastamento do tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, também citado pelo ex-diretor. O senador questionou ainda o fato de o depoimento de Vaccari na CPI da Petrobras ter sido barrado pelo PT:

– Ele é o tesoureiro do seu partido e é responsável por transferir recursos para a sua campanha. Terá sido por isso que ele não foi afastado?

Dilma acusou Aécio de ter “dois pesos e duas medidas” sobre investigações de denúncias:

– Quando chega no ex-presidente do seu partido, o senhor sai e diz que tem de investigar o PT. Não, senhor. Temos de investigar todos, doa a quem doer.

INFLAÇÃO

As críticas à inflação foram uma das principais munições de Aécio contra o atual governo. O tucano questionou como Dilma pretende controlar a alta dos preços e voltou a citar uma frase do secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Márcio Holland, de que a população deveria parar de comer carne e consumir ovos.

Dilma disse que a inflação está sob controle e alegou que o país foi impactado por dois “choques de oferta”, provocados pela seca, que seriam passageiros: os aumentos no custo da energia e nos preço dos alimentos. Aécio classificou o governo como “leniente”:

– Tivemos 418 mil empregos a menos neste ano do que no ano passado no mesmo período.

– Vocês entregaram o país com 11,4 milhões de desempregados, o segundo maior número, só ganhávamos da Índia – disse Dilma.

A petista afirmou que, caso a inflação ficasse nos 3% indicados pelo adversário, a taxa de desemprego chegaria a 15%, longe dos 5% de hoje.

violência

Um dos poucos momentos em que o tom arrefeceu foi na discussão sobre violência. Aécio citou documento da Unicef, segundo o qual 24 adolescentes morrem por dia no Brasil. O tucano questionou a efetividade do programa Crack, É Possível Vencer, que teria alcançado 40% das metas. Dilma afirmou que o seu governo foi o único a fazer “política nacional de combate a violência contra os jovens”.

– Então fracassou, candidata – rebateu Aécio.

O tucano criticou a baixa execução dos orçamentos do Fundo Nacional de Segurança (40%) e do Fundo Penitenciário (20%), no que classificou de “contingenciamento dos recursos da segurança”.

– O senhor está mal-informado, candidato – respondeu Dilma.

A petista afirmou que o governo federal gastou R$ 17,7 bilhões em segurança nos últimos quatro anos e promoveu operações conjuntas entre as polícias e Forças Armadas.

mobilidade

Dilma e Aécio também debateram obras de mobilidade urbana, com ênfase em divergências sobre a construção de metrôs pelo país. Aécio questionou a inexistência do obras prometidas pela adversária, como os metrôs em Porto Alegre e Belo Horizonte:

– A senhora tem um conjunto de boas intenções que a ineficiência do governo lamentavelmente não permitiu ainda que saíssem do papel.

Dilma argumentou que as obras estão em andamento, mas dependem de parcerias com prefeituras e a iniciativa privada.

– Estamos fazendo, candidato, nove metrôs no Brasil. É a primeira vez que se faz isso – devolveu a petista, que voltou a acusar o adversário de tentar se apropriar da origem do Bolsa Família.

Aécio insistiu no questionamento a efetividade do atual governo, afirmando que “das 200 obras de mobilidade anunciadas, apenas 28 foram entregues”. O tucano também acusou o PT de “demonizar” as parcerias público-privadas (PPPs) e permitir sobrepreço em obras.

Dilma afirmou que os projetos não estavam parados e que o adversário deveria “se informar melhor” sobre as obras.

lei seca

Dilma aproveitou uma de suas perguntas para lembrar o episódio, ocorrido em 2011, em que Aécio teve sua carteira de habilitação apreendida por estar com o documento vencido e por se recusar a fazer o teste do bafômetro, durante blitz da Lei Seca no Rio.

– Eu, candidato, não dirijo sob efeito de álcool e droga. (...) Agora, acredito que a Lei Seca trouxe um bem para o país, para os nossos jovens e para os nossos adolescentes – disse Dilma.

– Tampouco eu, candidata, mentir e insinuar ofensas como essa não é digno de qualquer cidadão, mas é indigno por uma presidente da República, candidata, a sua campanha é a campanha da mentira – rebateu Aécio, que afirmou já ter reconhecido o erro, cometido “inadvertidamente”.




quarta-feira, 15 de outubro de 2014

DOIS ECONOMISTAS



ZH 15 de outubro de 2014 | N° 17953


LEANDRO DE LEMOS*



A única certeza é a de que a Presidência do Brasil será ocupada por um(a) economista. Aécio é formado pela PUC de Minas Gerais e lá registrado como economista no Corecon. Dilma é formada pela UFRGS e registrada no Corecon que tenho a honra de presidir. Nossa profissão é regulamentada no país desde 1951 e tem relevância histórica e política na construção da economia brasileira.

Ambos são agentes políticos e assumem um papel de liderança que muitos economistas ocupam em universidades, empresas e instituições. A trajetória deles expõe convergências e divergências e aponta para uma certa continuidade na construção do modelo de desenvolvimento econômico brasileiro. Não há uma amazônica distância entre as propostas das duas coalizões partidárias no que tange às políticas macroeconômicas de curto prazo. Talvez um ou dois por cento de Selic para cá ou para lá no intuito de dar prioridade ao controle inflacionário ou à manutenção de empregos, e um pouco mais de diferenças no grau de protagonismo no papel do Estado.

Pelo menos no discurso – que sabemos é uma roupagem em grande parte descartada quando observamos a ação dos governantes –, defendem continuar o que antecessores construíram. Não há calorosos debates entre os economistas que estão nos bastidores dos programas de cada candidato. Porém, um contingente representativo dos mais de 60 mil economistas registrados no Brasil requisita a necessidade da construção de uma estratégia de desenvolvimento.

Nesse debate, propõe-se a inserção internacional da economia brasileira como produtora de tecnologias e conteúdo inovador em novas indústrias que – como janelas de oportunidade – estão em ebulição no atual contexto global. Essas cadeias produtivas requerem, no entanto, um forte alinhamento da educação, pesquisa, regulação industrial e de mercados e estimulado ambiente de negócios. Infelizmente, a ausência de propostas para aumentar a eficiência estratégica e o crescimento sustentável da economia brasileira preocupa e é justificada por não ser palatável e sedutora ao eleitor médio brasileiro, mas não seria um desafio perfeito para os dois presidenciáveis?

*Presidente do Conselho Regional de Economia do RS, professor de Economia da PUCRS

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

DEBATENDO SOBRE OS DEBATES



09 de outubro de 2014 | N° 17947

ITAMAR MELLO LETÍCIA DUARTE


ELEIÇÕES 2014. DISPUTA PELO PIRATINI

CANDIDATOS AO GOVERNO do Estado têm posições diferentes sobre confrontos diretos. Sartori, que teve mais votos no primeiro turno, quer esperar. Tarso quer tirar a diferença e mal pode esperar a discussão frente a frente


Depois de várias negociações, prevaleceu a posição da campanha de José Ivo Sartori de realizar debates apenas a partir da semana que vem. Segundo a equipe do candidato do PMDB, o primeiro confronto entre ele e Tarso Genro, anunciado para esta noite na TV Band, não sai. Em nota, a direção da emissora confirmou o cancelamento.

Durante boa parte da tarde de ontem, representantes de Sartori estiveram na sede do grupo de comunicação discutindo a participação. Propuseram a transferência para a semana que vem, argumentando que o candidato está ocupado com as gravações do horário eleitoral e com a articulação de alianças nestes primeiros dias após o primeiro turno. A situação ficou indefinida até a noite, quando Sebastião Melo, coordenador da campanha de Sartori, confirmou que o debate estava adiado:

– Tentamos construir a seguinte lógica: nesta semana, marcamos reuniões para buscar apoio e iniciamos a gravação dos programas. A agenda está tomada. Deixamos os debates para a semana que vem. Não tínhamos uma estrutura que permitisse sair do primeiro turno e entrar no segundo.

Segundo Melo, a proposta inicial da coligação era que fosse rea- lizado um único debate entre os dois candidatos durante o segundo turno, por meio de um pool de emissoras. A ideia não foi aceita. A campanha propôs então um encontro por grupo de comunicação. Diante da resistência, recuou e aceitou cinco de nove convites. Sartori vai discutir com Tarso na Band, na Rádio Gaúcha, na RBS TV, na Record e na Rádio Guaíba.

Na terça-feira, a equipe de Sartori já havia empurrado para a próxima semana o encontro entre os candidatos na Rádio Gaúcha, mas Melo rebate a crítica de que seu candidato estaria interessado em fugir do confronto:

– Por que o PT não fala de quando o Lula se negou a participar de debates? Isso nunca fizemos. Só pedimos tempo para organizar a campanha.

Ontem, ao se encontrar com vereadores de São Leopoldo que vão apoiá-lo, Sartori disse esperar que os debates foquem o futuro:

– Quero fazer uma campanha com ênfase em propostas de governo e paciência com as provocações do outro lado.

Sartori aproveita os dias depois do pleito para mobilizar suas tropas. Ontem, foi à sede do PDT para agradecer a adesão de integrantes – o partido ficará neutro – e se reuniu com coordenadores.

Dizendo-se “sequioso” pelo início dos debates do segundo turno, o candidato à reeleição Tarso Genro (PT) prepara a ofensiva contra o adversário José Ivo Sartori (PMDB). Uma das estratégias para tentar contrapor o discurso do rival será lembrar aos eleitores que Sartori foi líder da bancada do PMDB no governo Britto, participando de votações como a que resultaram em aumentos de impostos no período.

Outro ponto a ser explorado pelos petistas é o fato de o vice de Sartori, o empresário José Paulo Dornelles Cairoli, ter posição contrária ao salário mínimo regional, defendido pelos petistas.

Diante de prefeitos da Região Metropolitana, em uma reuniãoalmoço ontem no Canoas Park Hotel, em Canoas, Tarso afirmou que não vai atacar personalidades, mas expor trajetórias. Durante o encontro, o petista avaliou que saiu do primeiro turno com “uma vantagem” e “uma desvantagem”. A desvantagem seria o número de votos, que o colocou em segundo lugar na disputa. A vantagem seria poder se concentrar em um único adversário, enquanto no primeiro turno precisava enfrentar debates com “seis ou sete” concorrentes que atacavam o governo. Em menos de uma hora, ele se serviu, comeu e falou.

A dúvida é se Sartori vai comparecer a todos os debates programados por meios de comunicação, já que o peemedebista afirmou em entrevista na segunda-feira que gostaria de “no máximo dois debates, ou três” no segundo turno. Na avaliação de líderes petistas, seria uma tentativa de fugir do confronto.

– É uma afronta à sociedade gaúcha o Sartori não querer participar dos debates. Isso é muito ruim e demonstra medo de quem não tem projeto – criticou o presidente do PT estadual, Ary Vanazzi.

Diante da dúvida se Sartori iria ao primeiro debate, marcado para hoje, um assessor provocava:

– O Tarso vai.

O debate é uma das principais apostas para alavancar a candidatura petista, já que há restritas opções para reforçar a aliança partidária. Diante do sinal de apoio da coligação de Ana Amélia Lemos (PP) a Sartori, os petistas contam com adesões individuais de integrantes de outros partidos para fortalecer a campanha. Segundo a cúpula petista, 20 prefeitos do PP já teriam sinalizado apoio a Tarso, entre eles os gestores dos municípios de Frederico Westphalen, Herval, São Marcos e Cotiporã.